Durante a Semana Santa, nossos educandos participaram de momentos de reflexão, finalizando com a vivência da Ressurreição de Jesus, compreendendo seu significado e fortalecendo o sentido da fé em suas vidas. Um tempo de interiorização e aprendizado, que nos prepara para viver a Páscoa com mais consciência e esperança.
Somos Passio - por Leandro Johansen
"E nossa origem não está em um conceito, mas em um acontecimento:
a Paixão de Cristo,
mistério que não se esgota,
amor que não se explica por inteiro,
Deus que se deixa ferir para nos alcançar.
Hoje, o silêncio fala.
E na aparente derrota da cruz, o céu se abre em profundidade.
São Gregório de Nazianzeno nos oferece uma imagem que quase se pode sentir:
a cruz como um vaso de barro, frágil e humano,
repleto de perfume divino,
que, ao se romper, não se perde,
mas se derrama…
e invade a história,
e perfuma a humanidade,
e alcança cada vida que se permite tocar.
Assim é Cristo na cruz:
amor que se quebra sem se destruir,
amor que se entrega sem se esgotar.
E neste mistério, ecoa o pensamento teológico que atravessa os séculos:
o Deus que se esconde e se revela,
o Deus Absconditus e Revelatus.
Mistério que se oferece sem jamais ser totalmente capturado,
presença que se doa sem deixar de ser infinito.
Na cruz, Deus se mostra…
mas não se reduz.
Ama…
mas não se impõe.
Chama…
mas respeita.
A salvação, então, não é imposição, mas convite.
É proposta silenciosa que atravessa o coração.
Por isso, não somos a Igreja de uma cruz vazia.
Somos da cruz habitada.
Da cruz viva.
Da cruz onde o Amor tem nome, tem corpo, tem entrega.
Ali, o sofrimento não é negado, mas assumido.
Não é glorificado, mas transformado.
A cruz não é um fim.
É travessia.
É passagem.
É a noite que, sem alarde, começa a amanhecer.
Olhar para a cruz é mais do que contemplar:
é permitir-se ser olhado por ela.
É deixar que o Amor nos encontre onde estamos:
em nossas fragilidades,
em nossas dores,
em nossos silêncios mais profundos.
E, nesse encontro, algo acontece:
o sofrimento deixa de ser solitário,
a existência se torna comunhão,
o coração aprende a sentir com o outro.
A cruz nos humaniza.
Nos torna mais próximos, mais sensíveis, mais verdadeiros.
Nos ensina o caminho da empatia que floresce na dor partilhada
e amadurece na esperança.
Hoje, somos convidados a permanecer.
Não a fugir do mistério,
mas a habitá-lo.
Sigamos, então, com o olhar fixo em Cristo.
E que, neste olhar, sejamos também transformados.
Para que, sendo Passio,
levemos ao mundo não apenas palavras,
mas o perfume daquele Amor
que, ao se derramar na cruz,
nunca mais deixou de alcançar a humanidade.
E que, no silêncio desta Sexta-feira Santa,
já comece a pulsar em nós
a promessa da Ressurreição."