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A MORTE A PARTIR DA ESCATOLOGIA CRISTÃ

            Por Leandro Johansen de Godoi

 

            É próprio do discurso religioso pensar a vida tendo em vista a morte e, sem dúvida, “a interpretação da morte não atingirá o seu pleno significado nem terá a seriedade devida, se a morte for dissociada da vida” (BLANK, 2000, p.9).

            A questão da morte, da vida pós-morte, da concepção de julgamento, salvação e condenação, defronta-se com a ideia de Deus. Só é possível pensar o findar da vida com tranquilidade, tornando-se capaz de responder a si mesmo qual a concepção divina que se traz. Porventura, Deus seria um ser tão cruel ao ponto de reservar ao homem, no findar de sua existência terrestre, apenas ser alimento para os germes?

            Na linguagem escatológica, o termo parusia refere-se à questão da segunda vinda de Cristo, como juiz que tem em vista tudo transformar. Evidentemente, trata-se de um processo contínuo da pedagogia divina no que se refere ao cuidado expresso à humanidade através da visitação-encarnação.

            A questão da parusia, apregoada pela doutrina cristã, coloca o fiel numa atitude de vigilância e espera, possibilitando, assim, o constante renovar da fé e da esperança cristã, através da vivência da caridade.

            A ideia de juízo universal torna evidente a falência da justiça humana, suas tiranias e governos, seus subjetivismos e relativismos, pois é no momento da morte do ser humano - criatura de Deus, que o poder humano se revela limitado. É na morte que a supremacia divina se revela largamente diante da totalidade da história de cada um e de todos, tendo em vista que o homem é um “ser para”, nunca um ser isolado, mas em sua constituição nasce, vive e morre comunitariamente.

            A concepção de morte para a tradição cristã é vista como o término das questões provisórias, acabou o momento em que tudo é passageiro e mutável, trata-se de uma passagem para o estado definitivo, estado em que o homem retorna ao que de fato é e não mais permanece no que parecia ser.

            É a partir disso que a dinâmica religiosa age na sociedade de todos os tempos como um elemento moralizante, em seu aspecto positivo, tendo em vista auxiliar o homem a buscar a perfeição, assemelhando-se ao Cristo, pois com a morte todos os homens deparam-se com o juízo particular, momento em que haverá de se deparar consigo mesmo, reconhecer-se sem a hipocrisia e mediocridade criada a partir da negação de si mesmo e das imposições sociais, e vivenciar, verdadeiramente, a virtude da esperança que consiste em não mais esperar, mas em encontrar. A morte não deve ser encarada como “desencontro ou fim”, mas como um “encontro para e com”.

            Diante da justiça de Deus o homem verá a sua história, seus feitos e não feitos, a fim de que reconheça diante do Deus-Misericórdia a sua limitação humana que clama, segundo a linguagem paulina: “Aba, Pai” (Rm 8, 15b).

            Como afirma a constituição pastoral Gaudium et spes, no número 18a, somente “diante da morte, o enigma da condição humana alcança seu ponto alto”. Ou seja, é na morte que o homem se descobre enquanto um ser transcendente e que sua existência é para além de si mesmo.

            Pensar acerca da morte e da fé num ser divino que julga e acolhe, fere a lógica humana, mas vem de encontro com as inquietações mais íntimas do ser humano que busca ser eterno. A própria ciência é uma manifestação destas inquietações humana na busca por longevidade.

            O tema da morte remete os pensamentos aos paralelos como: velório, enterro, cemitério, luto, dentre outros. Geralmente é elucidado pela seca, deserto, podridão, destruição, abandono. Uma coisa é certa, diante da morte, todos são iguais: papas, imperadores, homens, mulheres, crianças.

            Atualmente, com a secularização da sociedade, fato que atinge com precisão as questões religiosas, a morte passou a ocupar um lugar bem modesto, tendo em vista os avanços científicos. Fato que gera um problema: já não se ensina a arte de bem morrer. Afinal, morre bem quem morre com dignidade e a dignidade da morte está, justamente, na tranquilidade moral do que se viveu e ideia clarificada do que se encontra ao morrer.

            Por isso, a teologia cristã insiste na importância da vivência da fé e da moral – o que se diferencia de uma ética subjetivista, própria dos dias atuais -, da descoberta do homem, enquanto um ser metafísico, mas, sobretudo, do conhecimento e relacionamento com Deus, que segundo o papa Francisco, é um Deus que se chama misericórdia.

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